Medicina Defensável · O Livro
Capítulo 10

Roadmap de 90 dias

Instalar a medicina defensável leva 90 dias, em três fases de trinta: estancar o risco ativo, construir a prova diária e blindar o futuro. Nenhuma tarefa exige mais que duas ou três horas por semana, e várias são delegáveis. Nenhuma conduta clínica muda — o médico é o mesmo, agora comprovável.

Três princípios

Como executar sem morrer na agenda cheia

Todo livro de gestão morre entre a concordância e a execução. Contra a agenda cheia funciona uma só ferramenta: sequência com prazo. Antes do cronograma, três princípios. Primeiro: o raio-x manda — se o diagnóstico do capítulo anterior mostrou um pilar zerado e outros saudáveis, inverta a ordem e ataque o elo fraco primeiro. Segundo: a sequência tem lógica — estancar o risco que corre agora, construir a prova diária, blindar o futuro. Terceiro: feito vale mais que perfeito — o TCLE bom na semana 5 protege mais que o perfeito planejado para o ano que vem.

Dias 1 a 30

Fase 1 — Estancar as exposições ativas

Semana 1 — O seguro e a crise. Localize a apólice de RC: vigência, limite, data de retroatividade, prazo de notificação de sinistro. Sem apólice, cotar é a tarefa número um do trimestre. Salve os três contatos de crise (advogado de direito médico, seguradora, direção técnica).

Semana 2 — A vitrine. Auditoria dos últimos 30–50 posts com a lista do Pilar 3: identificação completa? promessa de resultado, superlativo, "antes e depois" sem aparato educativo? Corrija o irregular e estabeleça a regra de aprovação prévia contra a Resolução 2.336/2023.

Semana 3 — A equipe e o sigilo. Reunião de 30 minutos com dois recados por escrito: casos clínicos não circulam em WhatsApp pessoal; registro retroativo não existe — o que faltou se resolve por aditamento datado.

Semana 4 — O inventário. Mapeie em uma página: quais dados coleto, onde ficam, quem acessa, onde está o backup. Checkpoint do dia 30: o risco ativo estancou.

Dias 31 a 60

Fase 2 — Construir a prova diária

Semanas 5 e 6 — O prontuário defensável. Adote os quatro princípios do Pilar 1 como disciplina consciente: raciocínio registrado, informação e recusa registradas, contemporaneidade absoluta, sobriedade. Técnica: por duas semanas, releia ao fim do dia o último registro perguntando "isso convenceria um perito de que fui diligente?". Em paralelo, verifique se o sistema tem assinatura digital ICP-Brasil e trilha de auditoria.

Semanas 7 e 8 — O consentimento como processo. Liste seus procedimentos por frequência e risco; para os três mais relevantes, construa (com revisão jurídica) o TCLE específico nos moldes do Pilar 2. Implante o fluxo: consentimento na consulta decisória, registro da conversa em prontuário, termo de recusa disponível. Checkpoint do dia 60: as duas máquinas de prova estão ligadas.

Dias 61 a 90

Fase 3 — Blindar e transformar em rotina

Semanas 9 e 10 — O protocolo de crise. Redija o protocolo das 72 horas em uma página e simule — 30 minutos com a equipe, um cenário hipotético. A primeira vez não pode ser a real.

Semanas 11 e 12 — Patrimônio e estrutura. Sessão com assessoria jurídica e contábil para revisar a estrutura societária pelo que ela é (organização e tributação, não blindagem) e organizar a proteção pessoal nos instrumentos lícitos, em tempo de paz.

Semana 13 — A rotina que mantém. Instale o calendário permanente: mensal (revisão amostral de 5 prontuários e da fila de publicações), semestral (reaplicação do raio-x), anual (renovação do seguro, revisão dos TCLEs, auditoria da presença digital, atualização normativa e nova simulação). Checkpoint do dia 90: o sistema não depende mais da sua memória. Nenhuma conduta clínica mudou; nenhum exame a mais foi pedido. O médico é o mesmo — agora comprovável.

Perguntas frequentes

Roadmap de 90 dias: dúvidas comuns

Por onde começar a proteger meu consultório de processos?
Pela Fase 1 do roadmap de 90 dias — estancar o risco ativo. Na primeira semana, localize e compreenda a apólice de RC (vigência, limite, retroatividade) e salve os contatos de crise. Depois, audite a presença digital contra a Resolução 2.336/2023, oriente a equipe por escrito sobre sigilo e registro, e faça o inventário de dados. São as exposições que podem virar dano nesta semana.
Quanto tempo leva para instalar a medicina defensável?
Noventa dias, em três fases de trinta: estancar (eliminar exposições ativas), construir (documentação e consentimento como prova diária) e blindar (protocolo de crise, proteção patrimonial e rotina de manutenção). Nenhuma tarefa exige mais que duas ou três horas por semana, e várias são delegáveis. O princípio é 'feito vale mais que perfeito'.
Preciso mudar minha conduta clínica no roadmap?
Não. Essa é a marca da medicina defensável: nenhuma conduta clínica muda e nenhum exame a mais é pedido. O roadmap instala o registro do que já se faz bem — o prontuário que demonstra diligência, o consentimento que cumpre o dever de informar, a conformidade auditada e o risco residual transferido. Ao fim, o médico é o mesmo, agora comprovável.
O que fazer nos primeiros 30 dias?
A Fase 1 — Estancar: compreender e regularizar o seguro de RC e salvar os contatos de crise (semana 1); auditar e corrigir a presença digital com regra de aprovação prévia (semana 2); orientar a equipe por escrito sobre sigilo e proibição de registro retroativo (semana 3); e mapear o inventário de dados (semana 4). Ao fim, o risco ativo estancou.
Sobre o autor

Cassiano Oliveira

Advogado especialista em Direito Médico e da Saúde (OAB/MG 168.226), com atuação dedicada à defesa e à gestão de risco de médicos e clínicas. Autor de Medicina Defensável e de Vulnerabilidade Médica e a Gestão do Risco Profissional (2023), e coautor de Do Caos à Cura (2024).

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