Panorama e perguntas e respostas sobre a judicialização médica no Brasil (2020–2025)

A judicialização médica no Brasil cresceu de forma relevante entre 2020 e 2025, aumentando a exposição jurídica, financeira e reputacional de médicos e serviços de saúde. Dentro desse cenário, Ginecologia/Obstetrícia e Cirurgia Plástica aparecem como áreas de maior risco, por combinarem procedimentos invasivos, alto impacto emocional e expectativas elevadas do paciente.

Além dos aspectos técnicos, o que mais “acende o pavio” de muitos litígios é o conjunto: comunicação falha + documentação fraca + consentimento inadequado. Isso explica por que a prevenção não depende só de “acertar a técnica”, mas de processo, registro e alinhamento de expectativa.

Quais especialidades médicas possuem maior risco de processos no Brasil?

De acordo com os dados apresentados no seu texto, o risco se concentra principalmente em especialidades com intervenções invasivas, procedimentos eletivos e/ou situações críticas.

Ranking das especialidades mais processadas (proporção do total de ações)

 

  • Ginecologia e Obstetrícia: 22%
  • Cirurgia Plástica: 19%
  • Ortopedia e Traumatologia: 15%
  • Cirurgia Geral: 10%
  • Oftalmologia: 8%
  • Clínica Médica: 7%
  • Anestesiologia: 7%
  • Cardiologia: 6%
  • Pediatria: 6%

Por que essas áreas lideram?

 

  • Ginecologia/Obstetrícia: partos e emergências com potencial de desfechos graves (lesão neonatal, sequelas maternas), além de forte carga emocional.
  • Cirurgia Plástica: procedimentos eletivos com foco em aparência; pequenas divergências do “resultado ideal” podem gerar conflito.
  • Ortopedia/Trauma: fraturas e sequelas com impacto direto em mobilidade e qualidade de vida.
  • Cirurgia Geral: complexidade técnica e urgências aumentam margem para alegações.
  • Oftalmo/Anestesio/Cardio: áreas de alta criticidade funcional (visão) e risco de eventos graves (morte/reações adversas).

Quais são as principais causas que levam à judicialização médica?

A maioria dos processos deriva de três fatores centrais:

  1. Falhas técnicas nos procedimentos
  2. Omissão no esclarecimento de riscos (falta de informação adequada)
  3. Problemas de comunicação entre médico e paciente

Causas específicas mais frequentes

  • Erros em partos e procedimentos obstétricos: lesão neonatal, morte fetal, sequelas maternas.
  • Complicações em estética/cirurgia plástica: expectativa frustrada, infecções, cicatrizes, sequelas físicas/emocionais.
  • Falha diagnóstica ou atraso no tratamento: citado como comum em clínica médica, cardiologia, oftalmologia e pediatria.
  • Fraturas e sequelas em ortopedia: mau alinhamento, perda funcional, infecção pós-procedimento.
  • Erros na administração de anestesia: reação adversa, dosagem, acidentes intraoperatórios.
  • Falta de consentimento informado: ausência de diálogo claro + documento inexistente/inadequado.
  • Problemas de documentação: prontuários incompletos ou inadequados.O índice de judicialização também é impulsionado de forma geral pelas características de certas áreas médicas, concentrando-se principalmente naquelas que envolvem procedimentos invasivos, que geram expectativas elevadas e onde o erro tem um impacto direto e imediato na vida, imagem ou funcionalidade do paciente

Quais especialidades médicas possuem maior risco de processos no Brasil?

De acordo com as fontes, as especialidades médicas com maior risco de processos no Brasil não são necessariamente aquelas com o maior número de profissionais, mas sim aquelas cujas práticas envolvem intervenções invasivas, procedimentos de maior risco, altas expectativas ou contato direto com situações críticas.
O foco principal das ações judiciais recai sobre especialidades cirúrgicas, procedimentos eletivos, estéticos e de maternidade. O ranking das especialidades mais processadas, com a respectiva proporção do total de ações judiciais, é o seguinte:
Ginecologia e obstetrícia: 22%
Cirurgia plástica: 19%
Ortopedia e traumatologia: 15%
Cirurgia geral: 10%
Oftalmologia: 8%
Clínica médica: 7%
Anestesiologia: 7%
Cardiologia: 6%
Pediatria: 6%
Por que essas áreas são as mais judicializadas?
Cada uma dessas especialidades possui características que aumentam sua exposição ao risco jurídico:
Ginecologia e Obstetrícia: Os partos e procedimentos emergenciais possuem um alto potencial para complicações (como lesão neonatal ou sequelas maternas) e envolvem fortes abalos emocionais.
Cirurgia Plástica: As demandas estéticas criam expectativas muito altas nos pacientes. Assim, pequenas divergências em relação ao resultado esperado, cicatrizes ou infecções podem gerar insatisfação e disputas judiciais.
Ortopedia e Traumatologia: Muitos dos casos envolvem fraturas que afetam a mobilidade e a qualidade de vida. Demandas judiciais por sequelas, mau alinhamento ósseo ou perda funcional são bastante comuns.
Cirurgia Geral: A complexidade técnica e a necessidade de realizar procedimentos de emergência ampliam a margem para alegações de erro ou omissão.
Oftalmologia, Anestesiologia e Cardiologia: São áreas que atuam com grande sensibilidade funcional, lidando diretamente com a visão, risco de morte, reações inesperadas e administração de dosagens críticas.
A concentração de processos nessas áreas ocorre porque as consequências de eventuais erros ou falhas de comunicação têm um impacto direto e imediato na vida, na imagem ou na funcionalidade do paciente.

Como médicos podem se prevenir juridicamente e evitar processos judiciais?

Para se prevenirem juridicamente e evitarem processos judiciais, os médicos devem adotar uma abordagem preventiva focada em boas práticas, documentação robusta e comunicação eficiente. Como a prevenção é sempre menos dolorosa e custosa do que a reparação de danos as principais estratégias recomendadas incluem:
Aprimoramento da comunicação: Manter um diálogo honesto com o paciente e investir em treinamentos de comunicação efetiva, garantindo que os riscos e expectativas dos tratamentos sejam plenamente esclarecidos.
Atenção rigorosa à documentação: Elaborar e revisar cuidadosamente os termos de consentimento informado e garantir que os prontuários médicos estejam sempre completos e bem preenchidos.
Padronização de processos: Desenvolver protocolos internos e fluxos de atendimento claros para minimizar as chances de falhas técnicas ou administrativas.
Gestão proativa de riscos: Realizar auditorias preventivas e simulações de cenários de risco clínico e jurídico no ambiente de trabalho.
Ação antecipada em conflitos: Fazer o acompanhamento de notificações e buscar a intermediação em casos pré-litigiosos, tentando resolver as insatisfações antes que cheguem ao Judiciário.
Apoio de consultoria jurídica: Investir em assessoria jurídica especializada para adotar ferramentas legais que “blindam” consultórios, clínicas e hospitais, tratando a segurança jurídica como um investimento no futuro e na solidez da carreira.

Quais especialidades médicas são as mais processadas?

De acordo com as estatísticas judiciais recentes, as especialidades médicas que sofrem mais processos no Brasil são aquelas focadas em procedimentos cirúrgicos, eletivos, de estética e maternidade.

  • Ginecologia e obstetrícia: 22% dos processos totais;
  • Cirurgia plástica: 19%;
  • Ortopedia e traumatologia: 15%;
  • Cirurgia geral: 10%;
  • Oftalmologia: 8%;
  • Clínica médica: 7%;
  • Anestesiologia: 7%;
  • Cardiologia: 6%;
  • Pediatria: 6%.

Essas especialidades lideram os índices de judicialização não necessariamente por terem um maior número de médicos, mas porque suas práticas envolvem intervenções invasivas, procedimentos de maior risco e forte impacto emocional e funcional na vida do paciente.

A ginecologia/obstetrícia e a cirurgia plástica, que ocupam o topo da lista, frequentemente enfrentam processos relacionados a complicações em partos, lesões neonatais, danos estéticos, sequelas cirúrgicas ou expectativas elevadas dos pacientes que não foram atendidas.

Qual o valor médio de indenização por danos morais?

O valor médio de indenização por danos morais é de R$ 35 mil no Estado de São Paulo. No entanto, esse valor pode aumentar dependendo da gravidade de cada caso. Existe um caso onde todos os danos morais, materiais e existenciais somaram-se 7 milhões tendo em vista que houve atualização do valor da ação de 2007 que foi finalizado em 2024, 17 anos de juros, selic e outros penduricalhos judiciais. 

Como a Cirurgia Plástica gera tantas ações?

A Cirurgia Plástica gera um alto volume de ações judiciais principalmente porque as demandas estéticas criam expectativas muito altas nos pacientes. Por se tratarem muitas vezes de procedimentos eletivos que afetam diretamente a imagem e a vida da pessoa, pequenas divergências entre o resultado obtido e o esperado podem facilmente gerar insatisfação e resultar em disputas judiciais.

Além da frustração com o resultado estético, os processos contra cirurgiões plásticos são frequentemente motivados por:
Danos estéticos e sequelas cirúrgicas, que podem ser tanto físicas quanto emocionais.
Complicações inerentes a procedimentos invasivos, como infecções e cicatrizes indesejadas.
Essas características tornam a especialidade uma das mais expostas ao risco jurídico no Brasil, representando 19% do total de processos por erro médico, pois lida com intervenções onde o impacto de qualquer falha ou insatisfação é imediato e muito sensível para o paciente.

Como a má-fé processual afeta os médicos no Brasil?

A má-fé processual é um tema cada vez mais debatido entre os médicos e profissionais de saúde, servindo como um alerta fundamental de que é necessário investir em prevenção antes mesmo de se discutir a defesa judicial. Processos que nem deveriam ser ajuizados, acabam afetando médicos em todo Brasil da seguinte maneira:

Prejuízos financeiros severos: Envolve o pagamento de custas processuais e indenizações (que, no Estado de São Paulo, têm média de R$ 35 mil para danos morais), além do risco de bloqueio de bens.

Desgaste emocional e psicológico: Os processos modificam a rotina do médico, gerando incertezas que podem comprometer a sua motivação para seguir na trajetória profissional.

Danos à reputação: Ações judiciais prejudicam a imagem do profissional, além de afetar o relacionamento de clínicas e hospitais com pacientes, auditorias e parcerias institucionais.

Restrições profissionais: Pode ocorrer a retração da atividade clínica, o aumento no valor dos seguros pagos pelos médicos e, em casos mais extremos, a suspensão ou restrição da atividade profissional.

Diante do risco de enfrentar litígios, incluindo aqueles movidos por má-fé, a recomendação central é adotar uma postura preventiva, fortalecendo a documentação, a comunicação com o paciente e a gestão de riscos.

Quais as vantagens da blindagem jurídica para clínicas e hospitais?

A blindagem jurídica (ou consultoria jurídica preventiva) oferece diversas vantagens estratégicas para clínicas e hospitais, sendo considerada um investimento fundamental para garantir um futuro sólido e protegido para as instituições, e não um mero luxo.

As principais vantagens destacadas incluem:
Redução de custos e dores de cabeça: Atuar de forma preventiva é sempre menos doloroso e custoso do que tentar reparar um dano que já aconteceu, permitindo que a instituição resolva problemas muito antes de eles chegarem ao Judiciário

Segurança e tranquilidade na atuação: A adoção de ferramentas jurídicas ajuda médicos e gestores a superarem o “pavor do processo”, permitindo que atuem com muito mais segurança, ética e tranquilidade no dia a dia.

Mitigação de prejuízos: Evita os severos impactos financeiros e de imagem que a judicialização traz para hospitais e clínicas.

Fortalecimento da relação médico-paciente: Ao incentivar o diálogo honesto e o aprimoramento da comunicação, a assessoria jurídica fortalece a confiança entre o paciente e a instituição de saúde.

Na prática, as instituições que buscam essa blindagem se beneficiam da implementação de protocolos internos claros, treinamentos de comunicação efetiva, revisão minuciosa de prontuários e termos de consentimento, além de auditorias preventivas.

Dessa forma, o cuidado com a segurança jurídica passa a ser tão valioso para a clínica ou hospital quanto o próprio atendimento prestado ao paciente.

Quais são as punições além da indenização financeira?

Além da indenização financeira (como o pagamento de danos morais) e das custas processuais, os médicos e profissionais de saúde que enfrentam processos judiciais estão sujeitos a outras punições e consequências severas. Segundo as fontes, essas implicações incluem:
Suspensão ou restrição da atividade profissional: em casos mais extremos, o profissional pode ser penalizado com limitações na sua atuação ou até mesmo a suspensão de suas atividades.
Bloqueio de bens: medida judicial que pode ser aplicada durante o andamento do processo para garantir o pagamento de futuras dívidas.
Apuração de responsabilidade penal e ética: além da esfera civil (que trata das indenizações), os profissionais podem responder criminalmente e enfrentar processos éticos nos conselhos de classe.
Danos à reputação profissional: a imagem do médico fica prejudicada perante a sociedade. 
No caso de clínicas e hospitais, ocorrem reflexos negativos na imagem institucional, no relacionamento com pacientes e até na manutenção de parcerias e auditorias.
Retração da atividade clínica: os processos podem forçar o médico a diminuir o ritmo ou o escopo de sua prática clínica.
Aumento no valor dos seguros: sofrer processos judiciais frequentemente leva ao encarecimento das apólices de seguro de responsabilidade civil pagas pelos médicos.
Severo desgaste emocional: lidar com a judicialização modifica a rotina do médico, gera um ambiente de incerteza e pode comprometer profundamente a sua motivação para seguir na trajetória profissional, afetando sua vida pessoal e sua carreira.

Quais os riscos de responder criminalmente por erro médico?

São graves os riscos e consequências que os médicos assumem ao responderem a processos judiciais de modo geral. No criminal esses riscos vão muito além do prejuízo financeiro com o pagamento de indenizações e custas processuais, incluindo:

Suspensão ou restrição da atividade profissional.

Bloqueio de bens.

Prejuízos severos à reputação.

Desgaste emocional crônico.

Aumento expressivo no valor dos seguros pagos pelos médicos.

É algo que afeta profundamente a vida pessoal e a carreira do profissional de saúde, motivo pelo qual a orientação de advogados especializados e a adoção de medidas preventivas são fortemente recomendadas.

Resumo:

Especialidade Médica
Proporção de Processos (%)
Principais Motivos de Ações Judiciais
Fatores de Risco Jurídico
Principais Áreas de Impacto no Paciente
Fonte
Ginecologia e Obstetrícia
22%
Erros em partos, intervenções cirúrgicas, diagnóstico incorreto, lesão neonatal, morte fetal e sequelas maternas.
Procedimentos emergenciais, alto potencial para complicações e fortes abalos emocionais envolvidos.
Vida do paciente e maternidade.
[1]
Cirurgia Plástica
19%
Complicações em procedimentos estéticos, resultados divergentes das expectativas, infecções, cicatrizes e sequelas físicas ou emocionais.
Demandas estéticas que criam expectativa elevada; pequenas divergências de resultado geram insatisfação.
Imagem e estética do paciente.
[1]
Ortopedia e Traumatologia
15%
Fraturas, mau alinhamento ósseo, perda funcional e infecções pós-procedimento.
Casos que afetam diretamente a mobilidade e a qualidade de vida; demandas por sequelas são comuns.
Mobilidade e funcionalidade.
[1]
Cirurgia Geral
10%
Falhas técnicas em cirurgias e complicações em procedimentos de emergência.
Procedimentos de emergência e alta complexidade técnica ampliam a margem para alegações de erro ou omissão.
Intervenções invasivas e situações críticas.
[1]
Oftalmologia
8%
Falha no diagnóstico e erros em tratamentos específicos da área.
Atuação em área de grande sensibilidade funcional (visão).
Visão e funcionalidade sensorial.
[1]
Anestesiologia
7%
Erro na administração de anestesia, reações adversas, dosagem incorreta e acidentes intraoperatórios.
Risco de morte direta, controle da dor e reações inesperadas do organismo.
Risco de morte e reações adversas graves.
[1]
Clínica Médica
7%
Falha no diagnóstico ou atraso em tratamento.
Área com grande volume de profissionais e contato direto em diagnósticos iniciais.
Saúde geral e evolução do tratamento.
[1]
Cardiologia
6%
Falha no diagnóstico ou atraso em tratamentos cardíacos.
Atuação em condições de risco de vida iminente e sensibilidade funcional.
Sobrevivência e saúde cardiovascular.
[1]
Pediatria
6%
Falha no diagnóstico ou atraso em tratamentos pediátricos.
Lidança com pacientes vulneráveis e expectativas familiares elevadas.
Saúde infantil e desenvolvimento.
[1]
[1] Especialidades médicas mais judicializadas no Brasil: dados 2020-2025 – Blog Cassiano Oliveira & Couto Advogados

FONTES PESQUISADAS:

CNJ (Conselho Nacional de Justiça) — judicialização da saúde (fonte oficial)

Link direto do relatório (PDF) do CNJ/PNUD

Página institucional do CNJ sobre Judicialização da Saúde (hub)

 


TJSP (Tribunal de Justiça de São Paulo) — decisões e consultas (fonte oficial)

Pesquisa de jurisprudência (para levantar padrões e valores citados em acórdãos)

Consulta processual (para checar casos e andamento)

Nota técnica (importante): “valor médio de indenização por danos morais em SP = R$ 35 milestudo com método (amostra, período, critério), o valor se trata de “média encontrada em processos”. O TJSP em si não publica “média oficial” consolidada de dano moral por tema; o estudo feito por advogado em consultas processuais.


Senado Federal — referência oficial


Demografia Médica 2025 (Ministério da Saúde / USP / AMB / CFM) — estudo

“Demografia Médica” é produzida por USP (FMUSP) com apoio de entidades (AMB/CFM e, em algumas edições, apoio institucional). Site oficial do projeto:


CFM (Conselho Federal de Medicina) — fonte oficial

Autor

Picture of Cassiano Oliveira

Cassiano Oliveira

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