Formação médica e identidade profissional: desafios após Flexner

Médicos em formação caminhando por corredor de hospital com silhueta de reflexão ética ao fundo

Quando comecei a olhar com mais atenção para os processos de formação médica no Brasil, percebi o quanto o legado do Relatório Flexner, de 1910, ainda influencia aquilo que entendemos como identidade profissional de médicos e profissionais da saúde. Esse tema, além de histórico, é prático: impacta desde a rotina acadêmica até questões éticas, jurídicas e mesmo financeiras, como observo em muitos casos do meu dia a dia profissional junto a Cassiano Oliveira.

O que foi e o que representou o Relatório Flexner

Poucos documentos tiveram tanto impacto sobre o ensino superior quanto o Relatório Flexner, elaborado por Abraham Flexner em 1910, a pedido da Fundação Carnegie, nos Estados Unidos. Ele viajou por cerca de 155 escolas médicas norte-americanas, analisou currículos, estrutura física, corpo docente e métodos de ensino. O resultado? Uma denúncia de falta de padrão, excesso de escolas sem infraestrutura e um apelo por rigor científico e prática laboratorial.

Flexner propôs que ser médico era tanto ciência quanto ética.

A proposta de Flexner, que era multidisciplinar e científica, trouxe recomendações indispensáveis:

  • Obrigatoriedade da graduação em ciências básicas para ingresso no curso de Medicina
  • Redução do número de escolas sem qualidade
  • Integração entre teoria e prática, priorizando laboratórios e hospitais-escolas
  • Valorização do método científico, da pesquisa e da produção acadêmica

No Brasil, como em todo o continente americano, essas ideias chegaram com algum atraso, mas mudaram completamente a estrutura e o perfil do ensino médico.

O reflexo de Flexner no Brasil atual

Hoje noto que muitos dos debates sobre a formação profissional partem, direta ou indiretamente, da lógica flexneriana. Política pública, regulamentação das faculdades, transporte do ensino da sala à beira-leito… Tudo reverbera aquele modelo. Quando me deparo com desafios como falhas na formação e seus riscos para os pacientes, entendo que durar mais de 100 anos não é à toa.

Mas, assim como defendo em minha atuação, todo modelo exige atualização. E não basta só olhar para o currículo: formação é também identidade. Mexe com postura ética, relação com o paciente, criatividade diante das adversidades e, sobretudo, proteção jurídica do profissional.

Identidade médica: entre tradição e novos paradigmas

A identidade médica, a meu ver, é formada em dois grandes eixos: técnico-científico e ético-humanístico. Flexner ajudou a consolidar o primeiro, mas a sociedade moderna exige cada vez mais do segundo.

A centralidade do paciente, a medicina baseada em evidências, a valorização da humanização e a preocupação com a autonomia do indivíduo são demandas claras do mundo contemporâneo.

Ao conversar com jovens médicos, percebo inquietações comuns:

  • Como manter o equilíbrio entre autonomia, protocolos, riscos e expectativas sociais?
  • Como construir autoridade científica sem deixar de lado a escuta ativa e empática?
  • Como lidar com cobranças éticas e legais, cada vez mais complexas?

Nesse contexto, a atuação jurídica, conforme ofereço na Cassiano Oliveira, tem papel fundamental. A orientação legal, preventiva e formativa, ajuda o profissional a encontrar segurança para construir sua identidade sem riscos desnecessários.

Desafios da formação médica contemporânea

Vou listar aqui os pontos das minhas observações e pesquisas recentes, dialogando com dados de instituições reconhecidas:

Dois médicos em um corredor de hospital discutindo prontuários

  1. A quantidade de escolas médicas cresceu demais. Hoje temos centenas de cursos no Brasil. Nem todos possuem ensino, infraestrutura e corpo docente compatíveis com a complexidade da medicina. Isso traz riscos claros para a formação e aumenta o desafio ético e jurídico dos futuros profissionais.
  2. Corpo docente altamente qualificado, mas nem sempre acessível. Apesar do excelente grau de doutoramento e dedicação dos professores (dados do Plano de Desenvolvimento Institucional da UFSC), a relação aluno-preceptor pode se perder em grandes turmas ou falta de tempo.
  3. Crescimento da judicialização da saúde. Situações corriqueiras de rotina clínica tornam-se litígios. Isso exige preparo não só técnico, mas também legal, ético, burocrático e humano. Vejo isso de perto ao orientar meus clientes sobre situações que envolvem denúncias, recursos éticos e demandas judiciais.
  4. Expansão das residências e falta de vagas em áreas prioritárias. O compromisso de ampliar vagas em residência, como o programa Agora Tem Especialistas, demonstra como ainda faltam especialistas para demandas da população. Essa transição desafia o recém-formado, que se depara com pressão para definir sua carreira muito rapidamente.
  5. Formação técnica versus expectativa social. Os pacientes querem mais do que procedimentos; buscam acolhimento, explicação, comunicação clara. A relação pessoal está, cada vez mais, no centro das reclamações ético-legais.

Não posso esquecer, ainda, da complexidade trazida pelo avanço tecnológico e integração multiprofissional. Do mesmo modo que médicos, outros profissionais, como os da enfermagem, precisam desenvolver identidade própria em meio ao volume de conhecimento e regulamentações, conforme pesquisa recente da Fiocruz.

Da formação universitária à construção identitária

Ao analisar etapas da formação médica, o impacto das primeiras experiências é sempre marcante. Vi, em diversos projetos e vivências, como o estágio supervisionado, a residência médica e a convivência com preceptores podem tanto fortalecer quanto minar a confiança e a ética do profissional.

Cito aqui o dilema do jovem em plantões e estágios, tema abordado no artigo Riscos na falta de formalização em plantão e residência. O estágio sem acompanhamento adequado, somado à ausência de modelos éticos, pode levar a erros, insegurança e conflitos éticos cada vez mais frequentes.

É na prática supervisionada que se molda (ou se perde) a identidade do futuro médico.

Esse processo é delicado e complexo. Muitas vezes, o preceptor não está preparado para dar suporte moral ao aluno. Já vi e orientei alunos em situações incômodas de assédio moral, problemas de comunicação ou até retaliações, como detalho no texto sobre condutas abusivas de preceptores.

Os novos riscos: o que mudou para o médico e o que precisa mudar?

O cenário pós-Flexner trouxe estabilidade acadêmica, mas também colocou pressões específicas sobre os profissionais. Um exemplo recorrente em minhas consultorias é a cobrança por resultados perfeitos, diagnósticos imediatos e postura impecável. Tudo isso exige atualização constante de conhecimentos, habilidades multidisciplinares e, sem dúvida, um senso prático de gestão de riscos profissionais, que abordo diariamente em Cassiano Oliveira.

Se antes o temor do médico era apenas errar, hoje também é

  • Ser processado civil e criminalmente
  • Receber denúncias éticas e administrativas
  • Sofrer exposição em redes sociais
  • Lidar com burocracia e cobranças públicas por resultados, mesmo diante da precariedade estrutural

Por isso, venho insistindo na ideia de que a identidade médica é, cada vez mais, construída em diálogo entre saber técnico, ética profissional e proteção jurídica. O direito à defesa e a busca pela orientação preventiva se mostram indispensáveis para quem deseja atuar de forma segura.

Desafios do marketing, imagem pessoal e ética

Outro ponto sensível para a identidade médica, e que frequentemente analiso na atuação da Cassiano Oliveira, é o equilíbrio entre reputação pública, marketing e ética.

Dois médicos apontando dados em uma tela digital em sala de reunião

A internet e as mídias sociais potencializaram a exposição do médico. Por um lado, aumentam o reconhecimento. Por outro, geram cobranças e potencializam conflitos éticos. Qual é o limite do marketing? De que maneira construir uma imagem forte sem violar a ética?

Trago no artigo A importância da imagem pessoal do médico exemplos de estratégias seguras para fortalecer a carreira, sem ultrapassar limites jurídicos e éticos.

Toda exposição pública exige preparo, clareza de limites e orientação especializada.

O médico deve investir em comunicação transparente, respeitosa e informativa. O erro mais comum é transformar o marketing em autopromoção indevida, gerando sanções éticas e até processos civis.

Multiprofissionalidade na saúde e os reflexos na identidade

O conceito tradicional de formação médica, centrada em uma figura, cede espaço para modelos multiprofissionais, onde cada especialidade constrói identidade própria e atua de forma interligada.

O Perfil da Enfermagem no Brasil mostra, por exemplo, como a identidade dos enfermeiros cresceu em qualificação, autonomia e participação feminina. Também médicos precisam valorizar essa articulação para garantir segurança profissional, qualidade assistencial e, claro, proteção contra riscos judiciais e morais.

Percebo nas reuniões e negociações hospitalares que o diálogo entre médicos, enfermeiros, farmacêuticos e outros nunca foi tão importante para evitar erros, reduzir litígios e compor uma identidade profissional mais humana, ética e sustentável.

Proteção jurídica desde a formação

Se Flexner trouxe rigor científico, os desafios atuais pedem algo além: proteção desde o início da carreira. Muitas vezes, o jovem profissional só procura ajuda após um problema. Na Cassiano Oliveira, procuro demonstrar que a prevenção é o melhor caminho para a segurança e afirmação da identidade do médico.

Estratégias incluem:

  • Formação em ética e legislação desde os primeiros anos
  • Estímulo ao diálogo com outras áreas da saúde e direito
  • Participação ativa em comissões, conselhos, associações
  • Construção de contratos sólidos para plantões, estágios e sociedades médicas
  • Treinamento regular sobre normativas do Sistema Único de Saúde e entidades reguladoras

Essas ações, quando bem orientadas, constroem autoestima, autoridade e segurança para enfrentar os desafios atuais. E, a cada caso que acompanho, percebo o quanto fazem falta para muitos colegas.

Conclusão

O legado do Relatório Flexner está longe de terminar, mas a formação médica do século XXI exige, além de solidez técnica, construção permanente de identidade. Sem ética, comunicação e proteção jurídica, o profissional se expõe a riscos evitáveis. Saber navegar entre regras, demandas sociais e expectativas pessoais é possível. E eu, enquanto advogado, consultor e professor, sigo defendendo que só com orientação adequada e gestão de riscos bem planejada é possível desenvolver uma carreira sólida, ética e blindada contra problemas. Que tal conversar comigo na Cassiano Oliveira para fortalecer a sua caminhada profissional?

Perguntas frequentes sobre formação médica e identidade profissional

O que foi o Relatório Flexner?

O Relatório Flexner foi um estudo realizado em 1910 por Abraham Flexner para avaliar a qualidade das escolas médicas nos Estados Unidos e Canadá, propondo padrões de excelência, integração entre ciências básicas e práticas clínicas, valorização do método científico e exigência de infraestrutura adequada. Seu impacto influenciou todo o ensino médico ocidental, incluindo o brasileiro.

Como Flexner influenciou a formação médica?

Flexner influenciou a formação médica ao exigir maior rigor científico, integração entre teoria e prática, qualificação de professores e infraestrutura de ensino. Com isso, escolas passaram a exigir graduação prévia em ciências, implantar hospitais-escola e estimular pesquisa, criando a base do modelo moderno de formação médica.

Quais são os desafios da identidade médica hoje?

Os principais desafios incluem: aumento da judicialização, necessidade de habilidades multiprofissionais, pressão por comunicação humanizada, exposição pública em redes sociais e dilemas ético-legais cada vez maiores. Também há a busca por atualização contínua, equilíbrio entre ciência e empatia, e formação jurídica preventiva.

Como fortalecer a identidade profissional médica?

Fortalece-se a identidade profissional médica por meio de formação ética e humanística desde o início da graduação, acompanhamento cuidadoso durante estágios e residência, diálogo aberto com outras áreas e associações, participação ativa em discussões éticas e busca por proteção jurídica eficiente, conforme proponho em minha atuação.

A formação médica atual é suficiente?

A formação médica atual é sólida em ciência e técnica, mas ainda precisa evoluir em questões éticas, práticas jurídicas, humanização, comunicação e multiprofissionalidade. Somente com atualização constante e orientação preventiva pode garantir segurança e qualidade ao médico do futuro.

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Cassiano Oliveira

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