O resultado do Enamed trouxe à tona uma preocupação que acompanho há anos: a fragilidade da formação médica em muitos cursos espalhados pelo Brasil. A discussão não é nova, mas ganhou contornos mais concretos depois que o Ministério da Educação divulgou que mais de 30% dos cursos de Medicina avaliados receberam notas insuficientes. Esse número acende um alerta. Afinal, a segurança do paciente é colocada em xeque quando futuros médicos demonstram desconhecimento em áreas tão elementares e essenciais da prática clínica.
O que é o Enamed e como ele avalia a formação médica?
O Enamed é uma avaliação nacional aplicada aos estudantes de Medicina que estão no final da graduação. Foi desenvolvido para oferecer uma fotografia nítida do conhecimento dos formandos antes de ingressarem no mercado de trabalho. Não se trata apenas de uma prova, mas de um termômetro da qualidade do ensino oferecido por faculdades públicas e privadas em todo o país, segundo dados do levantamento da CNN Brasil.
Na primeira edição, cerca de 69% dos cursos conseguiram garantir um desempenho satisfatório. O dado animador, porém, ofusca o outro lado da moeda: mais de 30% das instituições ficaram abaixo do mínimo esperado, segundo os critérios do Ministério da Educação. A situação é preocupante porque, conforme destacou o Ministério da Saúde, esses cursos enfrentarão supervisão estratégica, suspensão de vestibulares e até mesmo redução de vagas nos próximos anos.
Onde estão as principais falhas detectadas pelo Enamed?
O resultado do Enamed foi claro ao expor as falhas de conhecimento dos futuros médicos em áreas que, no meu entendimento, são a base para qualquer atendimento humanizado e seguro. Segundo a própria reportagem do Fantástico, examinadores identificaram erros graves em conteúdos como:
- Pediatria
- Ginecologia e Obstetrícia
- Saúde Mental
- Condutas de emergência
A primeira reação de muitos colegas médicos foi de espanto. O exame apresentou perguntas que exigiam respostas sobre situações básicas, como o manejo adequado em crises convulsivas, condução de parto normal e primeiros passos diante de casos de tentativa de suicídio. Fiquei surpreso, inclusive, ao ver que muitos estudantes erraram questões consideradas simples por quem atua na linha de frente.
A base da medicina falhou justamente nos cuidados mais fundamentais.
Recorrentemente, vejo nos meus atendimentos uma preocupação legítima de médicos com a atualização constante. Esse tipo de falha, entretanto, foge à curva do esperado e expõe fragilidades não só do estudante, mas, principalmente, do ambiente educacional no qual ele foi formado. O atraso no domínio desses conhecimentos pode ser fatal, especialmente em casos de emergência, onde minutos podem significar a diferença entre a vida e a morte.
O impacto da formação insuficiente na proteção do paciente
Ao analisar o contexto, percebo que o problema transcende o ambiente universitário. Quem paga essa conta, muitas vezes, é o paciente. A sociedade deposita enorme confiança no médico, acreditando que o diploma validado por uma instituição reconhecida garante o mínimo necessário para atendimentos de qualidade. No entanto, uma formação capenga pode representar riscos severos.
Quando há deficiência em competências essenciais, ocorre um efeito dominó: aumenta-se a incidência de erros médicos, amplia-se o número de processos judiciais, e toda a classe passa a ser vista com desconfiança. Já tratei de diversos casos jurídicos envolvendo falhas desse tipo, onde o ambiente de formação despreparou o profissional para as adversidades da rotina clínica. A prevenção de erros médicos deveria passar pela base, mas muitas vezes só é discutida após um incidente.
O erro médico é, em grande parte dos casos, fruto de uma sequência de pequenos equívocos.
Tendo acompanhado vários processos judiciais, percebo um padrão: cursos de medicina sucateados, estágios supervisionados de baixo impacto, supervisores ausentes e, por fim, recém-formados lançados em plantões críticos sem apoio prático suficiente. O Inep já ressaltou que medidas restritivas estão previstas para instituições com desempenho insatisfatório, mas a questão é saber por quanto tempo ainda veremos notícias de estudantes despreparados vacilando no começo de suas carreiras.
Situações reais: reflexo das falhas de formação no cotidiano
O Fantástico destacou o caso emblemático do Rio Grande do Sul, onde pacientes denunciaram um cirurgião por supostos erros cometidos. Não entro aqui no mérito do processo judicial, mas sim naquilo que a reportagem evidenciou: a preocupação pública crescente quanto à segurança dos procedimentos médicos e a confiança nos profissionais formados em cursos sem avaliação satisfatória.
Já vivenciei no escritório relatos semelhantes, principalmente em regiões onde a fiscalização da qualidade do ensino é mais vulnerável. Isso revela que não se trata apenas de uma estatística distante, mas de relatos concretos que envolvem vidas, reputações e futuras carreiras.
O que vejo é que o excesso de demanda, somado ao déficit pedagógico, cria um cenário propício ao erro não intencional. E todo erro, especialmente na medicina, traz consequências que vão além do dano físico: há abalo psicológico no paciente, descrença nas instituições e isolamento progressivo do profissional.
O papel do Estado e das instituições após o diagnóstico do Enamed
A reação dos órgãos públicos diante dos resultados do Enamed foi imediata. O Ministério da Saúde anunciou que cursos com baixo desempenho passarão por severa supervisão, com possíveis suspensões de vestibulares e cortes nas vagas ofertadas, informação confirmada oficialmente. O Inep também destaca processos de fiscalização intensiva.
As medidas refletem a necessidade de reagir rápido à ameaça que uma má formação representa para a saúde pública. A questão central, que discuto em minha atuação diária, é: haverá realmente mudança efetiva ou apenas ajustes pontuais para amenizar a repercussão?
- Supervisão estratégica de cursos deficitários.
- Suspensão temporária de vestibulares.
- Redução do número de vagas ofertadas.
- Exigência de melhorias nos projetos pedagógicos.
Parte desses mecanismos de regulação, por vezes, chega tarde demais. O ideal seria que a detecção de falhas viesse acompanhada de responsabilização ágil e de estratégias robustas para qualificação, como já discuti sobre titulação legítima e formação de especialistas.
Quando a falha na formação vira risco jurídico para o médico
Como advogado especializado em direito médico, vejo diariamente como o despreparo de alguns profissionais está diretamente ligado a processos judiciais e a episódios de judicialização da saúde. Muitos profissionais ficam perdidos diante de uma acusação de erro médico, sem saber quais protocolos seguir ou como documentar sua conduta de modo a se proteger.
Nenhum médico está imune ao risco quando sua formação é insatisfatória. Por isso, a gestão de risco deve começar na graduação e ser fortalecida ao longo de toda a carreira, tema que trato frequentemente nos meus treinamentos.
Outra dimensão importante é o impacto financeiro, ético e reputacional. Médicos que não obtêm formação adequada ou não recebem suporte institucional enfrentam dificuldade até para comprovar que são especialistas, discutido com detalhes em artigos sobre título de especialista.
No Brasil, a judicialização da saúde segue em tendência ascendente, causando receio não apenas na classe médica, mas em toda a estrutura dos serviços de saúde locais e nacionais.
Segurança do paciente começa na sala de aula, mas só se concretiza se houver estrutura e acompanhamento.
Gestão de risco e reformas no ensino: onde está o caminho?
Pelo que observo, a melhor estratégia para enfrentar esse cenário é uma reestruturação profunda das bases do ensino médico, acompanhada de medidas de gestão de risco desde o período acadêmico. O profissional de saúde deve, já na graduação, receber suporte em temas como:
- Responsabilidade civil e penal na prática clínica
- Ética médica e limites do marketing médico
- Convivência multidisciplinar nos estágios
- Adoção de protocolos e checklists em cenários de emergência
- Documentação clínica detalhada e segura
O estudante que se envolve ativamente com essas questões tende a cometer menos erros e a manter-se protegido em situações adversas. Ao mesmo tempo, faculdades e hospitais precisam fortalecer a supervisão prática, pois incentivar plantões e residências sem estrutura adequada só eleva o risco, como debato mais a fundo em textos sobre riscos em plantão e residência médica.
Conclusão
O resultado do Enamed expôs um retrato preocupante: muitos cursos de Medicina não estão formando profissionais prontos para atuar com segurança e competência. A negligência na formação básica afeta diretamente o bem-estar dos pacientes e mina a confiança da sociedade na classe médica.
Acredito que só com investimentos sérios em educação médica, fiscalização rigorosa e políticas de gestão de risco será possível virar esse jogo. Se você é médico, estudante ou gestor de uma clínica, este é o momento de rever práticas, buscar atualização constante e blindar sua carreira contra riscos jurídicos e reputacionais.
Para mais detalhes sobre os resultados do Enamed, sugiro buscar a reportagem completa no Globoplay, no programa de 01/02/2026 do Fantástico.
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Perguntas frequentes sobre o Enamed e formação médica
O que é o Enamed?
O Enamed é a Avaliação Nacional do Desempenho dos Estudantes de Medicina, uma prova aplicada aos alunos que estão no último ano da graduação. Ela serve para medir o nível de conhecimento dos futuros médicos, identificando pontos fortes e fragilidades na formação, além de embasar políticas de supervisão dos cursos avaliados.
Quais falhas existem no Enamed?
Foram detectadas falhas graves na formação de estudantes, incluindo erros em perguntas consideradas simples sobre pediatria, ginecologia, saúde mental e atendimento de emergência. Essas falhas revelam deficiências no ensino prático e teórico de alguns cursos de Medicina no Brasil.
Como as falhas afetam os pacientes?
Quando um recém-formado não domina temas básicos, aumenta-se o risco de erros em diagnósticos, condutas equivocadas em situações de emergência e adoção de procedimentos inseguros. O paciente pode sofrer danos físicos, psicológicos e ainda ter sua confiança abalada nos serviços de saúde.
Onde denunciar problemas no Enamed?
Denúncias sobre irregularidades ou fraudes no Enamed podem ser feitas ao Ministério da Educação, ao Inep e aos conselhos regionais de medicina. Além disso, pacientes e profissionais podem recorrer ao Ministério Público quando identificarem riscos à sociedade provocados por falhas estruturais na formação.
Como essas falhas impactam a formação médica?
As falhas expostas pelo Enamed mostram que parte dos cursos não está preparando adequadamente seus alunos. Isso leva ao aumento dos riscos na prática clínica, prejuízo à reputação do profissional e crescimento do número de denúncias e judicializações, exigindo mudanças profundas na estrutura educacional médica do Brasil.
Quando a falha na formação vira risco jurídico para o médico