Complicações Cirúrgicas, Prontuário Médico e Proteção Profissional

Lições Práticas para Médicos e Gestores de Saúde

Na prática médica, especialmente em cirurgias de maior complexidade, nem toda intercorrência significa erro médico. Ainda assim, muitos profissionais só percebem a importância da documentação técnica adequada quando já estão diante de uma notificação, sindicância ou ação judicial.

Este artigo reúne lições práticas, baseadas em evidência científica e entendimento jurisprudencial consolidado, sobre como boa técnica, comunicação e prontuário bem elaborado são decisivos para a proteção do médico.


Cirurgias complexas exigem análise contextualizada

Pacientes com histórico de tratamentos prévios, como radioterapia pélvica, apresentam alterações anatômicas tardias amplamente descritas na literatura médica, incluindo fibrose intensa, aderências e perda dos planos anatômicos naturais — condição conhecida como pelve hostil.

Esse cenário aumenta significativamente o risco de intercorrências, mesmo quando o procedimento é realizado com técnica adequada e dentro dos padrões científicos aceitos. A literatura demonstra que complicações urinárias, por exemplo, são mais frequentes nesse contexto, não configurando, por si só, falha profissional.

📚 Fonte científica:
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC8699574/


Indicação cirúrgica e estado da ciência

A decisão médica deve sempre ser analisada conforme o estado da ciência no momento do ato, e não à luz do desfecho posterior. Esse entendimento é pacífico no Superior Tribunal de Justiça (STJ), especialmente em casos que envolvem responsabilidade médica.

O STJ já firmou que o profissional não pode ser responsabilizado quando atua de forma tecnicamente adequada, baseada em evidência disponível à época e nas condições clínicas concretas do paciente, ainda que o resultado não seja o esperado.


Complicação previsível não é erro médico

Intercorrências intraoperatórias ou pós-operatórias previsíveis, descritas na literatura e compatíveis com o procedimento realizado, não se confundem com imperícia, imprudência ou negligência.

O que diferencia uma complicação aceitável de um erro médico é:

  • Identificação adequada do evento
  • Conduta imediata e técnica correta
  • Acompanhamento clínico compatível com boas práticas
  • Registro claro e cronológico em prontuário

Quando esses elementos estão presentes, o risco jurídico reduz de forma significativa.


A importância da conduta diante da intercorrência

Do ponto de vista assistencial e jurídico, a forma como o médico reage à intercorrência é tão relevante quanto a intercorrência em si.

Boas práticas incluem:

  • Reconhecimento imediato do evento
  • Correção no mesmo ato, quando indicado
  • Adoção de medidas preventivas adicionais
  • Monitoramento clínico e por exames
  • Comunicação adequada com o paciente

Essas condutas reforçam a diligência e a boa-fé profissional.


Evolução clínica e fatores do próprio paciente

Nem toda evolução desfavorável decorre da conduta médica. Comorbidades, tratamentos prévios e adesão parcial às orientações terapêuticas influenciam diretamente o processo de cicatrização e o risco de infecções.

Por isso, é essencial que esses fatores estejam devidamente registrados no prontuário, de forma técnica, objetiva e sem juízo de valor.


Prontuário médico: documento técnico, jurídico e prova central

O prontuário médico não é apenas um registro assistencial. Ele é reconhecido como documento legal, sigiloso e científico, sendo o principal instrumento de reconstrução dos fatos em auditorias, sindicâncias, perícias e processos judiciais.

A Resolução CFM nº 1.638/2002 define o prontuário como documento essencial da prática médica, e a jurisprudência brasileira reconhece seu valor probatório na análise da conduta profissional.

📚 Fonte normativa – Conselho Federal de Medicina:
https://portal.cfm.org.br/legislacao/resolucao-cfm-no-1638-2002/

Na prática, o que não está registrado tende a não existir juridicamente.


Lições práticas para médicos e gestores

Alguns aprendizados fundamentais:

  • Cirurgias complexas exigem documentação ainda mais detalhada
  • Intercorrências devem ser descritas com linguagem técnica e neutra
  • Prontuário bem preenchido protege o profissional no futuro
  • Comunicação e registro são parte integrante do ato médico
  • A medicina é obrigação de meio, não de resultado

Conclusão

A melhor defesa do médico começa antes de qualquer conflito, no momento da decisão clínica, da comunicação com o paciente e, principalmente, na qualidade do prontuário.

Boa medicina, boa documentação e alinhamento com a ciência e a ética profissional são, hoje, os maiores aliados do médico diante de um cenário cada vez mais judicializado.


📌 Fontes confiáveis

 

Autor

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Cassiano Oliveira

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