Ao longo dos meus mais de 15 anos de experiência acompanhando médicos e residentes, percebo que a ansiedade diante de sindicâncias, fiscalizações e riscos éticos quase sempre nasce de um mesmo ponto: a formalização inadequada da atuação profissional. Vejo que muitos colegas, em especial durante a residência, não se dão conta das consequências de plantões ou outros serviços prestados sem o devido respaldo documental e autorização formal.
Neste artigo, quero alertar sobre os principais riscos que rondam a ausência dessa formalização, trazendo exemplos, orientações e, sobretudo, os pontos centrais que podem ameaçar a sua carreira e expor ao crivo de órgãos como o Ministério Público (MP) e o Conselho Federal de Medicina (CFM). Vou contar o que presenciei, o que defendo na prática como advogado e os caminhos para evitar questões disciplinares, sindicais e administrativas nas experiências de plantão e residência médica.
Onde começa o risco: contexto da atuação do residente
No ambiente hospitalar, o residente integra programas institucionalizados, conforme estabelece a legislação e as diretrizes nacionais dos programas de Residência Médica, como acontece, por exemplo, com a recente formatura de novos especialistas dos Programas de Residência Médica do HU-UFSC. O vínculo do residente, no geral, não é estatutário e sim de contrato educacional, com bolsa, regidas por regras bem definidas.
Segundo pesquisa recente debatida em seminário sobre desafios para proteger gestantes no ambiente de trabalho, mais de 88% dos trabalhadores da saúde são contratados sob regime CLT e não estatutário (seminário discute desafios para proteger gestantes no ambiente de trabalho). Isso já demonstra um contorno delicado sobre vínculos, contratos e responsabilidades. O desajuste aqui, principalmente quando o residente busca experiências externas sem comunicar e oficializar, pode ser fonte de graves consequências.
A ausência de formalização abre espaço para interpretações negativas sobre o exercício da medicina.
1. Risco de sindicância ética por exercício irregular
Já atendi casos em que residentes foram surpreendidos por sindicâncias instauradas a partir de denúncias de plantões não formalizados, levantando suspeita de exercício irregular da profissão ou até mesmo de condutas não compatíveis com o programa de residência. Esses casos chegam com frequência ao CFM e podem se transformar em procedimentos disciplinares sérios, pois a supervisão é um pré-requisito legal segundo o Código de Ética Médica.
Se o residente não prova documentadamente que aquela atuação foi comunicada e autorizada, ele se expõe a ser acusado de atuar sem supervisão adequada e fora dos limites institucionais. O ônus da prova recai sobre quem não consegue mostrar sua regularidade.
2. Acusação de anúncio indevido de especialidade
Outro erro comum: vejo jovens médicos anunciarem especialidade à qual ainda não estão formalmente habilitados, seja em sites, redes sociais ou escalas informais de plantão. O anúncio equivocado pode configurar infração ética e gerar processos junto ao Conselho, com sanções que variam entre advertência e suspensão.
Jamais divulgue titulações ou especialidades não concluídas. Essa atitude protege o residente de problemas futuros e está alinhada com as normas do CFM.
3. Sobreposição de horários e acúmulo indevido de remuneração
Ao analisar casos, noto que residentes que aceitam plantões externos durante o período da residência frequentemente cruzam horários com as atividades obrigatórias do programa, violando o regimento e criando conflito de horários.

Se houver recebimento simultâneo de bolsa e pagamentos por plantões, podem surgir suspeitas de lesão aos cofres públicos, principalmente se a documentação não indicar anuência dos responsáveis pela residência.
Já vi situações em que a folha de ponto foi usada pelo MP como prova de presença em dois locais ao mesmo tempo.
4. Violação do regimento interno da residência
Os regimentos geralmente proíbem o exercício paralelo de cargos efetivos ou temporários, mesmo que a redação possa ser vaga em determinados casos. Na dúvida, sempre recomendo consultar a coordenação antes de aceitar qualquer função externa.
Em episódios recentes que acompanhei, residentes desligados sumariamente do programa relataram não ter feito consulta ou comunicado formal sobre a atividade fora do hospital.
5. Falta de anuência e ciência institucional
Quando não há registro formal, anuência expressa ou ciência dos responsáveis institucionais quanto à atuação externa, tudo vira motivo para sindicância. É fundamental guardar e apresentar autorizações, confirmações de e-mail e qualquer outro documento que demonstre conhecimento prévio da instituição sobre sua atuação.
No contexto do debate sobre responsabilidade civil do médico residente, defendo que boa-fé e documentação são peças centrais da defesa. Não basta dizer que não sabia: é preciso provar.
6. Infração ao Código de Ética Médica
O Código de Ética Médica prevê que o residente somente pode atuar sob supervisão direta e, se houver atuação isolada em plantão externo não formalizado, há risco de infrigir normas relacionadas à autonomia, segurança do paciente e da própria instituição. Se ocorrer intercorrência ou evento adverso nesse plantão, a ausência de documentos legais pode agravar as consequências para o residente.
O erro não está apenas na prática, mas sobretudo na ausência de registro e transparência.
7. Exposição a processo disciplinar e desligamento
Registrei casos em que residentes, após sindicância, receberam advertências, suspensões e até desligamento do programa. A ausência de registros formais, escalas assinadas, contrato e comunicação institucional fragiliza a defesa nesses processos. O residente tende a ser considerado culpado de antemão.
Ao abordar erros em contratos de prestação de serviços médicos, ressalto: cláusulas claras, documentos e relatórios semanais são aliados contra desentendimentos futuros e provas em sindicâncias.
8. Suspeitas de conduta incompatível e dano à imagem
Além das penalidades oficiais, há o dano imaterial à reputação do residente. Circular em grupos informais ou redes sociais dados sobre sindicâncias, investigações ou mesmo boatos pode comprometer a imagem profissional, dificultando futuras contratações e oportunidades nos melhores serviços de saúde.

Mantenha absoluto sigilo processual e não compartilhe detalhes de investigações ou sindicâncias em redes sociais. Vi carreiras promissoras serem marcadas por publicações descuidadas que viralizaram negativamente.
9. Dificuldade de defesa por ausência de documentação
No calor de processos disciplinares, um risco que infelizmente presencio com frequência é a total falta de documentação por parte do residente. Sem folhas de ponto, escalas, recibos, contratos ou autorizações, a defesa técnica se enfraquece e, em muitos casos, se esgota.
No texto sobre advocacia preventiva e segurança jurídica que escrevi, mostro como a prova documental é a linha de frente na blindagem do profissional da saúde.
Como minimizar riscos: orientações práticas
- Antes de aceitar plantões externos, comunique formalmente a coordenação e aguarde autorização por escrito.
- Guarde e digitalize escalas, recibos, contratos e comprovantes de pagamento dos plantões realizados.
- Jamais anuncie pelas redes sociais ou em qualquer canal que já é especialista se ainda não completou o programa e não obteve registro no CFM.
- Evite absolutamente qualquer tipo de sobreposição de horário entre plantões e atividades obrigatórias do programa de residência.
- Reúna e mantenha organizados todos os documentos, mesmo após o fim da residência, pois denúncias podem surgir depois da conclusão.
Lembro que muitos programas de residência e hospitais exigem ciência e anuência institucional antes de qualquer atividade externa. Também há orientações no artigo sobre passagem de plantão médico e cuidados legais que merecem atenção para não deixar brechas contratuais e éticas.
Boa-fé e transparência, apesar de essenciais, não substituem a formalidade exigida.
Casos reais e erros comuns que observei
Já orientei residentes que enfrentaram sindicâncias porque assinavam escalas em plantões externos “de favor” para ajudar colegas ou cobrir folgas sem qualquer comunicação à coordenação. Outros responderam por exercício irregular diante do MP por receber remuneração em dois lugares no mesmo horário, ainda que não houvesse dolo envolvido, apenas descuido formal. Há um padrão nesses relatos: ausência ou negligência na documentação de suas funções e horários.
Insisto: os órgãos fiscalizadores partem do princípio da legalidade e formalidade. Falta de registro equivale a irregularidade. Pequenas atitudes como guardar escalas, recibos e autorizações podem evitar anos de desgaste e prejuízos sérios à carreira.
Em situações delicadas, oriento buscar o amparo jurídico de profissionais preparados, especialmente em temas relacionados à responsabilidade penal do médico em plantão para não cometer novos equívocos sob pressão e para estruturar a defesa técnica de modo sólido.
Boas práticas para blindar sua atuação
- Formalize todas as atividades remanescentes – a comunicação, mesmo digital, pode ser comprovada.
- Atue sempre sob supervisão se estiver em período de residência.
- Procure orientação quando tiver dúvida sobre aspectos legais e éticos de nova função ou plantão externo.
- Mantenha postura ética, silenciosa e confidencial sobre qualquer sindicância ou procedimento aberto. Nem mesmo colegas próximos devem receber detalhes.
- Guarde uma cópia de todo e qualquer documento que trate de remuneração, horários e autorizações.
A formalização correta protege o residente contra riscos éticos, institucionais e administrativos.
Conclusão: prevenção é o melhor remédio
Com base em minha trajetória, posso afirmar: a formalização da atuação médica durante a residência não é mero detalhe burocrático. Previne desgastes pessoais, protege contra procedimentos disciplinares e blinda sua imagem enquanto profissional da saúde. Não subestime o poder de um bom registro e da anuência institucional. Se a situação é dúbia, não arrisque: busque amparo e registre tudo.
No projeto Cassiano Oliveira, trato constantemente não apenas da defesa, mas sobretudo da prevenção no ambiente jurídico e institucional dos profissionais de saúde. Para evitar prejuízos irreversíveis à carreira médica, reforço: documente, comunique, siga as normas e, na dúvida, procure orientação.
Se você está em busca de estratégias completas para gestão e blindagem jurídica de sua carreira e clínica, entre em contato para conhecer nossas soluções e evitar surpresas desagradáveis no futuro. Sua segurança e tranquilidade merecem este cuidado extra.
Perguntas frequentes sobre formalização em residência e plantão médico
O que é formalização na residência médica?
Formalização na residência médica é o processo de registrar e comunicar oficialmente todas as atividades exercidas pelo residente, incluindo plantões externos, contratos, horários e supervisões. Isso envolve documentos como escala de plantão, contratos firmados, autorizações da coordenação e recibos, garantindo que a atuação aconteça sempre dentro das normas éticas e institucionais.
Quais os riscos de não formalizar plantão?
Entre os riscos mais graves estão sindicâncias éticas, processos disciplinares, suspeita de exercício irregular da medicina, possibilidade de desligamento do programa, prejuízos à imagem e dificuldade na defesa em caso de denúncias. A falta de formalização pode resultar até em perda do registro profissional e responder por infrações junto ao MP e CFM.
Como posso formalizar meu plantão médico?
Recomendo sempre comunicar a coordenação da residência antes de aceitar qualquer plantão externo. Guarde escalas assinadas, contratos, recibos e obter autorização institucional por escrito. O ideal é que todo contato seja documentado por e-mail, ofício ou até aplicativos com confirmação de leitura, além de manter cópias físicas e digitais desses registros. Assim, sua atuação é respaldada legalmente.
Vale a pena formalizar o plantão médico?
Sim, sem dúvidas. A formalização é o que garante segurança jurídica, respaldo ético e evita que dúvidas sobre sua atuação sejam transformadas em problemas reais para sua carreira. Com tudo regularizado, as chances de enfrentar sindicâncias e prejuízos futuros diminuem de maneira marcante.
Quais documentos preciso para formalização?
São indispensáveis: escala de plantão assinada, contratos de prestação de serviço, autorização ou anuência da coordenação, recibos de pagamento, folhas de ponto e eventuais comunicados formais (como e-mails ou ofícios). Quanto maior a documentação, maior a segurança em casos de sindicância ou processos disciplinares.