{"id":2030,"date":"2026-06-09T14:42:00","date_gmt":"2026-06-09T14:42:00","guid":{"rendered":"https:\/\/cassianooliveira.com.br\/blog\/?p=2030"},"modified":"2026-06-09T11:42:03","modified_gmt":"2026-06-09T14:42:03","slug":"scpnamedicinaresolucao3972026","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cassianooliveira.com.br\/blog\/direito-da-saude\/scpnamedicinaresolucao3972026\/","title":{"rendered":"SCP na Medicina: O Que a Resolu\u00e7\u00e3o Cremesp n\u00ba 397\/2026 Mudou e Por Que Todo M\u00e9dico Precisa Entender"},"content":{"rendered":"<h3>ARTIGO<\/h3>\n<p><strong>SCP na Medicina: O Que a Resolu\u00e7\u00e3o Cremesp n\u00ba 397\/2026 Mudou e Por Que Todo M\u00e9dico Precisa Entender<\/strong><\/p>\n<p><em>Por Cassiano Oliveira \u2014 Advogado especialista em Direito M\u00e9dico (OAB\/MG 168.226)<\/em><\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, a Sociedade em Conta de Participa\u00e7\u00e3o (SCP) se consolidou como um dos instrumentos mais utilizados por hospitais, cl\u00ednicas e operadoras para remunerar m\u00e9dicos plantonistas e prestadores de servi\u00e7o. A l\u00f3gica era atrativa para ambos os lados: a institui\u00e7\u00e3o reduzia encargos trabalhistas e previdenci\u00e1rios, e o m\u00e9dico recebia sua remunera\u00e7\u00e3o na forma de distribui\u00e7\u00e3o de lucros, com tributa\u00e7\u00e3o potencialmente menor do que a incidente sobre sal\u00e1rio ou pr\u00f3-labore.<\/p>\n<p>Por anos, esse modelo operou em uma zona cinzenta \u2014 tolerado na pr\u00e1tica, question\u00e1vel na teoria. A Resolu\u00e7\u00e3o Cremesp n\u00ba 397\/2026, publicada em abril deste ano, acabou com essa ambiguidade no Estado de S\u00e3o Paulo. E o precedente tem relev\u00e2ncia para todo o territ\u00f3rio nacional.<\/p>\n<h4>O que \u00e9 a SCP e por que ela foi usada na medicina<\/h4>\n<p>A Sociedade em Conta de Participa\u00e7\u00e3o est\u00e1 regulada nos arts. 991 a 996 do C\u00f3digo Civil. Trata-se de uma sociedade at\u00edpica, sem personalidade jur\u00eddica pr\u00f3pria, formada por dois tipos de s\u00f3cios:<\/p>\n<ul>\n<li><strong>S\u00f3cio ostensivo:<\/strong> exerce a atividade empresarial, aparece para terceiros e responde pelas obriga\u00e7\u00f5es da sociedade<\/li>\n<li><strong>S\u00f3cio participante:<\/strong> aporta capital, permanece oculto perante terceiros e participa dos resultados sem executar a atividade-fim<\/li>\n<\/ul>\n<p>Esse arranjo foi transplantado para a medicina da seguinte forma: o hospital ou cl\u00ednica assumia o papel de s\u00f3cio ostensivo; o m\u00e9dico entrava como s\u00f3cio participante, recebia &#8220;lucros&#8221; pelos atendimentos realizados e, formalmente, n\u00e3o havia rela\u00e7\u00e3o de emprego nem presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7o \u2014 apenas uma sociedade.<\/p>\n<p>A economia era real. Os riscos, por\u00e9m, sempre existiram.<\/p>\n<h4>O que a Resolu\u00e7\u00e3o 397\/2026 estabelece<\/h4>\n<p>A norma \u00e9 direta em dois pontos centrais:<\/p>\n<p><strong>Primeiro:<\/strong> o m\u00e9dico que figure como s\u00f3cio participante de uma SCP <strong>n\u00e3o pode prestar servi\u00e7os m\u00e9dicos para essa mesma sociedade<\/strong>. A incompatibilidade \u00e9 estrutural. O s\u00f3cio participante, por defini\u00e7\u00e3o, n\u00e3o executa a atividade-fim \u2014 \u00e9 investidor. Quando o m\u00e9dico atua clinicamente para a SCP da qual \u00e9 s\u00f3cio, ele perverte a natureza jur\u00eddica do instituto.<\/p>\n<p><strong>Segundo:<\/strong> o Cremesp veda expressamente o uso da SCP como instrumento para <strong>disfar\u00e7ar v\u00ednculo empregat\u00edcio<\/strong>. Contratos com previs\u00e3o de escala fixa, subordina\u00e7\u00e3o hier\u00e1rquica, jornada definida e exclusividade s\u00e3o incompat\u00edveis com a estrutura de SCP \u2014 independentemente de como o contrato seja nominado.<\/p>\n<p>O que <strong>n\u00e3o muda:<\/strong> a SCP continua sendo um instrumento l\u00edcito e v\u00e1lido quando utilizada exclusivamente para <strong>fins de investimento financeiro<\/strong>. Se o m\u00e9dico aporta capital em um neg\u00f3cio do qual n\u00e3o participa operacionalmente, a estrutura permanece intacta e permitida.<\/p>\n<h4>Por que os riscos s\u00e3o maiores do que a maioria percebe<\/h4>\n<p>A aparente simplicidade do modelo obscurece uma exposi\u00e7\u00e3o jur\u00eddica multifacetada. H\u00e1 quatro frentes de risco simult\u00e2neas.<\/p>\n<p><strong>Risco trabalhista<\/strong><\/p>\n<p>A Justi\u00e7a do Trabalho brasileira tem jurisprud\u00eancia consolidada sobre o tema: presentes os elementos caracterizadores do v\u00ednculo empregat\u00edcio (pessoalidade, n\u00e3o eventualidade, subordina\u00e7\u00e3o e onerosidade \u2014 art. 3\u00ba da CLT), o juiz reconhece o v\u00ednculo independentemente da roupagem contratual utilizada. Isso significa que um m\u00e9dico que atuou por tr\u00eas anos como &#8220;s\u00f3cio participante&#8221; de uma SCP, cumprindo escala, recebendo ordens e atendendo com exclusividade, pode ser equiparado a um empregado retroativamente. As consequ\u00eancias incluem pagamento de FGTS, f\u00e9rias proporcionais, 13\u00ba sal\u00e1rio, adicional noturno, horas extras e verbas rescis\u00f3rias \u2014 com corre\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria e juros.<\/p>\n<p><strong>Risco fiscal<\/strong><\/p>\n<p>A Receita Federal pode, em procedimento de fiscaliza\u00e7\u00e3o, reclassificar os valores recebidos como &#8220;distribui\u00e7\u00e3o de lucros&#8221; em remunera\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os. Essa reclassifica\u00e7\u00e3o acarreta cobran\u00e7a retroativa de Imposto de Renda Retido na Fonte (IRRF), contribui\u00e7\u00f5es ao INSS (cota patronal e do trabalhador), PIS e COFINS sobre a receita do s\u00f3cio ostensivo, al\u00e9m de multas que podem chegar a 150% do tributo devido nos casos em que a Receita caracterizar dolo, fraude ou simula\u00e7\u00e3o. O prazo decadencial para constitui\u00e7\u00e3o do cr\u00e9dito tribut\u00e1rio \u00e9 de cinco anos \u2014 o que significa que autua\u00e7\u00f5es podem alcan\u00e7ar remunera\u00e7\u00f5es recebidas h\u00e1 bastante tempo.<\/p>\n<p><strong>Risco \u00e9tico-disciplinar<\/strong><\/p>\n<p>A viola\u00e7\u00e3o da Resolu\u00e7\u00e3o 397\/2026 configura infra\u00e7\u00e3o deontol\u00f3gica pass\u00edvel de apura\u00e7\u00e3o pelo Cremesp. O processo \u00e9tico-disciplinar pode resultar em advert\u00eancia confidencial, censura p\u00fablica, suspens\u00e3o do exerc\u00edcio profissional por at\u00e9 30 dias (prorrog\u00e1vel) ou, nos casos mais graves, cassa\u00e7\u00e3o do registro. Embora a norma seja do Cremesp \u2014 e portanto de aplica\u00e7\u00e3o direta apenas em S\u00e3o Paulo \u2014, outros conselhos estaduais e o CFM acompanham os precedentes do maior conselho do pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>Risco de responsabilidade civil<\/strong><\/p>\n<p>Na estrutura da SCP, a responsabilidade perante terceiros recai <strong>exclusivamente sobre o s\u00f3cio ostensivo<\/strong>. O s\u00f3cio participante, em tese, fica oculto. Na pr\u00e1tica m\u00e9dica, isso cria uma situa\u00e7\u00e3o paradoxal: o profissional executa o ato m\u00e9dico, assume toda a responsabilidade t\u00e9cnica e \u00e9tica pelo resultado, mas pode encontrar obst\u00e1culos para acionar seu seguro de responsabilidade civil ou para se defender em a\u00e7\u00e3o indenizat\u00f3ria, dado que formalmente ele &#8220;n\u00e3o estava ali&#8221; como prestador de servi\u00e7o.<\/p>\n<h4>O que muda para hospitais e cl\u00ednicas<\/h4>\n<p>A Resolu\u00e7\u00e3o imp\u00f5e um \u00f4nus tamb\u00e9m para o lado contratante. Institui\u00e7\u00f5es que mantiverem contratos de SCP com m\u00e9dicos em desacordo com a norma estar\u00e3o expostas n\u00e3o apenas \u00e0s mesmas frentes de risco trabalhista e fiscal, mas tamb\u00e9m a dificuldades operacionais crescentes: m\u00e9dicos bem assessorados juridicamente recusar\u00e3o esse modelo, e a press\u00e3o regulat\u00f3ria tende a se intensificar com o tempo.<\/p>\n<p>O efeito pr\u00e1tico esperado \u00e9 uma migra\u00e7\u00e3o, ainda que gradual, para estruturas mais transparentes: contratos de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os com pessoa jur\u00eddica individual adequadamente estruturada, v\u00ednculos empregat\u00edcios formais onde a rela\u00e7\u00e3o realmente \u00e9 de emprego, ou cooperativas m\u00e9dicas regularizadas nos termos da legisla\u00e7\u00e3o vigente.<\/p>\n<h4>O cen\u00e1rio nos demais estados<\/h4>\n<p>A Resolu\u00e7\u00e3o 397\/2026 \u00e9 uma norma do Cremesp \u2014 conselho regional com jurisdi\u00e7\u00e3o sobre o Estado de S\u00e3o Paulo. Formalmente, ela n\u00e3o vincula m\u00e9dicos registrados em outros estados. No entanto, tr\u00eas raz\u00f5es tornam sua relev\u00e2ncia nacional:<\/p>\n<ol>\n<li>O Cremesp \u00e9 o maior conselho m\u00e9dico do Brasil e seus precedentes normativos costumam ser adotados pelos demais CRMs e pelo CFM<\/li>\n<li>Os riscos trabalhistas e fiscais descritos acima decorrem da legisla\u00e7\u00e3o federal \u2014 CLT e C\u00f3digo Tribut\u00e1rio Nacional \u2014 e se aplicam em todo o territ\u00f3rio nacional independentemente de norma do conselho<\/li>\n<li>A tend\u00eancia regulat\u00f3ria \u00e9 de converg\u00eancia: o que o Cremesp normatizou hoje reflete uma interpreta\u00e7\u00e3o que a doutrina jur\u00eddica e os tribunais trabalhistas j\u00e1 vinham construindo h\u00e1 anos<\/li>\n<\/ol>\n<h4>S\u00edntese<\/h4>\n<p>A Resolu\u00e7\u00e3o Cremesp n\u00ba 397\/2026 n\u00e3o criou um problema novo \u2014 ela explicitou e regulamentou um problema que j\u00e1 existia. O m\u00e9dico que atua como s\u00f3cio participante de uma SCP prestando servi\u00e7os para ela pr\u00f3pria sempre esteve em uma posi\u00e7\u00e3o juridicamente fr\u00e1gil. A norma apenas tornou essa fragilidade ineg\u00e1vel.<\/p>\n<p>O modelo da SCP para remunera\u00e7\u00e3o m\u00e9dica operacional chegou ao fim de sua viabilidade. N\u00e3o por raz\u00f5es ideol\u00f3gicas, mas por raz\u00f5es t\u00e9cnicas: a estrutura jur\u00eddica nunca foi compat\u00edvel com o uso que se fazia dela.<\/p>\n<p><em>Cassiano Oliveira \u2014 OAB\/MG 168.226<\/em> <em>Especialista em Direito M\u00e9dico <\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Resolu\u00e7\u00e3o Cremesp n\u00ba 397\/2026 n\u00e3o criou um problema novo \u2014 ela explicitou e regulamentou um problema que j\u00e1 existia. 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